terça-feira, 13 de outubro de 2009

Rock en´rola


O ensaio já dura cerca de uma hora e meia. Pra desespero dos vizinhos, a massaroca sonora ecoa a metros e metros de distância casa afora. Guitarra, baixo, bateria. Como toda boa banda de rock, está tudo ali. Aliás, quase tudo. Ainda falta algo. E a reclamação é constante.

- Cara, temos que dar um jeito, de uma vez por todas. A gente já tem quase um ano de banda e nada de vocalista. Se não formos atrás, ele não vão cair do céu -, esbraveja o baterista, depois de errar um trecho da música e parar de tocar.

O problema poderia ser resolvido facilmente se algum dos integrantes se dispusesse a executar tal tarefa. Mas não era o caso. Nenhum deles se considerava talentoso o suficiente pra tanto.

O ensaio prossegue. Entre erros, acertos, palavras de incentivo e reclamações, eles vão tocando, música atrás de música. E se divertindo também. Afinal, hora do ensaio é momento de descontração, de esquecer dos problemas do dia a dia e tomar umas biritas com os amigos.

Por falar neles, sempre tem um que aparece no meio da tarde pra ver a banda tocar.

Tim! Tóm! ... Tim! Tóm!

- Deve ser o Gutão. Ele ficou de vir às quatro. Vou lá atender -, diz o baterista, morador da casa onde funciona o estúdio improvisado.

Ao abir o portão, uma surpresa. Ao invés do amigo, dá de cara com um sujeito franzino, de cabelos longos na altura do ombro, aparentando uns 28 anos, e com uma quase gimba de cigarro entre os dedos, que vai logo se apresentando:

- Meu nome é Júlio e moro aqui do lado. Sempre ouço vocês tocarem e gosto bastante do som. É que eu sou vocalista e tô procurando uma banda. Será que eu pudia fazer um teste com vocês?

Sem entender direito o que estava se passando, intrigado, o anfitrião o convida pra entrar.

Passados dois anos de ensaios e mais ensaios, além de, claro, muitos desentendimentos e discussões, o quarteto se firma como banda. Pelo menos na parte musical.

Num belo sábado à tarde, o batera perde a paciência e o tempo se fecha novamente.

- Pô, galera, desse jeito não dá. A banda já tem três anos e até hoje não temos site, MySpace, Twitter, Orkut ... Além do mais, precisamos gravar o nosso material de divulgação, correr atrás da mídia, shows, gravadora ...

A reclamação faz sentido. Mas como não se trata de uma daquelas bandas de metal satanistas - o som é um rock alternativo com pitadas de experimentalismo -, talvez eles - incluindo aí o próprio baterista - ainda estejam à espera de ajuda divina.

...

À propósito, alguém se habilita?

A imagem que ilustra este post foi retirada daqui.

2 comentários:

Helida disse...

Cantor é mais fácil de arrumar. Nasce em árvores. Mas achar "Deus"... Rsrsrs. Aff! É mais difícil...
Gostei do seu cotidiano em pílulas!

Fernando Ávila disse...

Valeu a visita, Helida. Fico feliz em saber que gostou das minhas pílulas do cotidiano ... rs rs rs